Investir em ações significa se tornar sócio de uma empresa. Parece simples, mas escolher uma ação exige muito mais do que olhar se o preço subiu ou caiu nos últimos dias.
Antes de investir, é importante entender o negócio, analisar seus resultados, avaliar o endividamento e verificar se a empresa consegue crescer e gerar valor ao longo do tempo.
A análise fundamentalista parte justamente dessa lógica. Ela busca avaliar uma companhia a partir de seus fundamentos econômicos, financeiros e setoriais.
Neste artigo, você vai conhecer alguns dos principais pontos que merecem atenção antes de comprar uma ação.
Entenda primeiro o que você está comprando
Uma ação representa uma participação em uma companhia. Portanto, quando você compra ações, passa a participar economicamente daquele negócio.
Na B3, ações podem oferecer potencial de valorização e distribuição de dividendos, mas também estão sujeitas às oscilações do mercado.
Por isso, uma pergunta simples pode evitar muitas decisões ruins:
Você compraria essa empresa inteira se tivesse dinheiro suficiente?
Se a resposta depende apenas do gráfico da cotação, provavelmente ainda falta conhecer melhor o negócio.
Procure entender:
- o que a empresa vende;
- como ela ganha dinheiro;
- quem são seus concorrentes;
- quais são suas vantagens competitivas;
- em quais mercados atua;
- quais riscos podem afetar seus resultados.
O preço da ação importa. Mas a qualidade do negócio também.
Analise receitas e lucros
Uma empresa saudável precisa conseguir gerar receita e, no longo prazo, transformar parte dessa receita em resultado para os acionistas.
Observe a evolução dos resultados ao longo de vários anos, e não apenas de um trimestre.
Pergunte:
A receita está crescendo?
A empresa apresenta lucros recorrentes?
As margens estão melhorando ou piorando?
O crescimento parece sustentável?
Um resultado excepcional em determinado trimestre pode ter ocorrido pela venda de um ativo, por um benefício tributário ou por outro evento não recorrente.
Por isso, olhar apenas o lucro líquido isoladamente pode levar a conclusões equivocadas.
Observe o endividamento
Dívida não significa necessariamente que uma empresa esteja em dificuldades.
Companhias utilizam capital de terceiros para financiar projetos, realizar aquisições e expandir suas operações. O problema aparece quando a dívida cresce além da capacidade de geração de caixa do negócio.
Alguns indicadores utilizados pelo mercado ajudam nessa avaliação, como:
Dívida líquida/EBITDA — relaciona o endividamento líquido com a geração operacional de resultado.
Cobertura de juros — ajuda a avaliar a capacidade da companhia de pagar os encargos de sua dívida.
Também é importante observar vencimentos, custo da dívida e exposição a moedas estrangeiras.
Avalie a capacidade de gerar caixa
Lucro e caixa não são exatamente a mesma coisa.
Uma companhia pode apresentar lucro contábil e, ao mesmo tempo, enfrentar dificuldades na geração de caixa.
Por isso, além da demonstração de resultados, vale observar o fluxo de caixa.
Empresas capazes de gerar caixa de forma consistente possuem mais condições de financiar crescimento, reduzir dívidas, recomprar ações ou distribuir recursos aos acionistas.
Dividendos são importantes, mas não conte apenas com eles
Muitos investidores procuram ações pensando em construir renda passiva.
Dividendos podem fazer parte dessa estratégia. Entretanto, um dividend yield elevado isoladamente não significa necessariamente que uma ação seja um bom investimento.
Uma empresa pode pagar dividendos elevados em determinado período e reduzir drasticamente os pagamentos posteriormente.
O ideal é analisar de onde vem o dinheiro distribuído e se os resultados que sustentam esses pagamentos são recorrentes.
Conheça indicadores de valuation
Depois de avaliar a qualidade da empresa, surge outra pergunta:
Quanto vale esse negócio?
Uma excelente empresa pode se transformar em um investimento ruim se for comprada por um preço excessivamente alto.
Alguns indicadores frequentemente utilizados são:
P/L (Preço/Lucro): compara o preço da ação com o lucro por ação.
P/VP (Preço/Valor Patrimonial): relaciona o valor de mercado com o patrimônio líquido.
EV/EBITDA: compara o valor da empresa com uma medida de sua geração operacional.
Dividend Yield: relaciona os dividendos distribuídos ao preço da ação.
Nenhum desses indicadores deve ser analisado sozinho. Empresas de setores diferentes possuem características distintas e podem justificar múltiplos muito diferentes.
Compare empresas do mesmo setor
Imagine comparar um banco com uma empresa de tecnologia utilizando exatamente os mesmos parâmetros.
Provavelmente a análise produzirá distorções.
Por isso, indicadores relativos fazem mais sentido quando utilizados para comparar empresas semelhantes ou para analisar a evolução histórica da própria companhia.
Além dos números, considere também características específicas de cada setor, como regulação, concorrência, necessidade de capital e sensibilidade aos ciclos econômicos.
Governança corporativa também importa
Os números contam uma parte da história.
Outra parte está na forma como a companhia é administrada.
Procure conhecer a estrutura de governança, o histórico dos controladores, a administração e o relacionamento da empresa com os acionistas minoritários.
A própria B3 mantém segmentos diferenciados de governança corporativa para companhias que adotam determinados padrões adicionais.
Não ignore o cenário econômico
Mesmo uma empresa bem administrada pode ser afetada pelas condições econômicas.
Taxa de juros, inflação, câmbio, crescimento econômico e desemprego podem influenciar receitas, despesas, demanda e custo de capital.
A análise fundamentalista, portanto, não observa apenas os balanços da companhia. Ela também considera o setor e o ambiente econômico em que a empresa opera.
Diversificação continua sendo importante
Encontrar uma empresa que parece excelente não significa concentrar todo o patrimônio nela.
Toda companhia está sujeita a riscos específicos.
A diversificação pode reduzir parte do chamado risco não sistêmico, embora não elimine todos os riscos de uma carteira.
Isso significa distribuir os investimentos de maneira coerente com seus objetivos e sua tolerância a risco, em vez de depender do desempenho de uma única empresa.
Seu perfil de investidor também precisa entrar na conta
Ações são investimentos de renda variável. Seus preços podem apresentar oscilações significativas, inclusive em períodos relativamente curtos.
Por isso, antes de investir, é necessário considerar objetivos, horizonte de investimento, situação financeira e capacidade de suportar perdas.
A CVM trata essa adequação entre produtos, objetivos e perfil de risco pelo conceito de suitability.
Não existe uma ação adequada para todos os investidores.
Afinal, como escolher uma ação?
Não existe um indicador capaz de responder sozinho se uma ação deve ou não ser comprada.
Uma análise mais consistente combina diferentes elementos:
Negócio + resultados + geração de caixa + endividamento + governança + perspectivas + riscos + preço.
A cotação mostra quanto o mercado está disposto a pagar naquele momento. Ela não conta, sozinha, toda a história da empresa.
Investir melhor começa justamente quando o investidor deixa de perguntar apenas:
“Essa ação vai subir?”
e começa a perguntar:
“Que empresa estou comprando, quais riscos estou assumindo e quanto estou pagando por ela?”
Essa mudança de perspectiva pode transformar completamente a maneira de analisar o mercado.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Avalie seus objetivos, perfil de risco e, quando necessário, procure orientação profissional.